Quinta-feira, 18 de Agosto de 2005
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A evidência salta aos olhos: o país está a arder porque alguém quer que ele
arda. Ou melhor, porque muita gente quer que ele arda. Há uma verdadeira
indústria dos incêndios em Portugal. Há muita gente a beneficiar, directa ou
indirectamente, da terra queimada.
Oficialmente, continua a correr a versão de que não há motivações económicas
para a maioria dos incêndios. Oficialmente continua a ser dito que as
ocorrências se devem a negligência ou ao simples prazer de ver o fogo. A
maioria dos incendiários seriam pessoas mentalmente diminuídas.
Mas a tragédia não acontece por acaso. Vejamos:
1 - Porque é que o combate aéreo aos incêndios em Portugal é TOTALMENTE
concessionado a empresas privadas, ao contrário do que acontece noutros
países europeus da orla mediterrânica?
Porque é que os testemunhos populares sobre o início de incêndios em várias
frentes imediatamente após a passagem de aeronaves continuam sem
investigação após tantos anos de ocorrências?
Porque é que o Estado tem 700 milhões de euros para comprar dois submarinos
e não tem metade dessa verba para comprar uma dúzia de aviões Cannadair?
Porque é que há pilotos da Força Aérea formados para combater incêndios e
que passam o Verão desocupados nos quartéis?
Porque é que as Forças Armadas encomendaram novos helicópteros sem estarem
adaptados ao combate a incêndios? Pode o país dar-se a esse luxo?
2 - A maior parte da madeira usada pelas celuloses para produzir pasta de
papel pode ser utilizada após a passagem do fogo sem grandes perdas de
qualidade. No entanto, os madeireiros pagam um terço do valor aos produtores
florestais. Quem ganha com o negócio? Há poucas semanas foi detido mais um
madeireiro intermediário na Zona Centro, por suspeita de fogo posto.
Estranhamente, as autoridades continuam a dizer que não há motivações
económicas nos incêndios...
3 - Se as autoridades não conhecem casos, muitos jornalistas deste país,
sobretudo os que se especializaram na área do ambiente, podem indicar
terrenos onde se registaram incêndios há poucos anos e que já estão
urbanizados ou em vias de o ser, contra o que diz a lei.
4 - À redacção da SIC e de outros órgãos de informação chegaram cartas e
telefonemas anónimos do seguinte teor: "enquanto houver reservas de caça
associativa e turística em Portugal, o país vai continuar a arder". Uma
clara vingança de quem não quer pagar para caçar nestes espaços e pretende o
regresso ao regime livre.
5 - Infelizmente, no Norte e Centro do país ainda continua a haver incêndios
provocados para que nas primeiras chuvas os rebentos da vegetação sejam mais
tenros e atractivos para os rebanhos. Os comandantes de bombeiros destas
zonas conhecem bem esta realidade.
Há cerca de um ano e meio, o então ministro da Agricultura quis fazer um
acordo com as direcções das três televisões generalistas em Portugal, no
sentido de ser evitada a transmissão de muitas imagens de incêndios durante
o Verão. O argumento era que, quanto mais fogo viam no ecrã, mais os
incendiários se sentiam motivados a praticar o crime...
Participei nessa reunião. Claro que o acordo não foi aceite, mas
pessoalmente senti-me indignado. Como era possível que houvesse tantos
cidadãos deste país a perder o rendimento da floresta - e até as
habitações - e o poder político estivesse preocupado apenas com um aspecto
perfeitamente marginal?
Estranhamente, voltamos a ser confrontados com sugestões de responsáveis da
administração pública no sentido de se evitar a exibição de imagens de todos
os incêndios que assolam o país.
Há uma indústria dos incêndios em Portugal, cujos agentes não obedecem a uma
organização comum mas têm o mesmo objectivo - destruir floresta porque
beneficiam com este tipo de crime.
Estranhamente, o Estado não faz o que poderia e deveria fazer:
1 - Assumir directamente o combate aéreo aos incêndios o mais rapidamente
possível. Comprar os meios, suspendendo, se necessário, outros contratos de
aquisição de equipamento militar.
2 - Distribuir as forças militares pela floresta, durante todo o Verão, em
acções de vigilância permanente. (Pelo contrário, o que tem acontecido são
acções pontuais de vigilância e combate às chamas).
3 - Alterar a moldura penal dos crimes de fogo posto, agravando
substancialmente as penas, e investigar e punir efectivamente os infractores
4 - Proibir rigorosamente todas as construções em zona ardida durante os
anos previstos na lei.
5 - Incentivar a limpeza de matas, promovendo o valor dos resíduos, mato e
lenha, criando centrais térmicas adaptadas ao uso deste tipo de combustível.
6 - E, é claro, continuar a apoiar as corporações de bombeiros por todos os
meios.
Com uma noção clara das causas da tragédia e com medidas simples mas
eficazes, será possível acreditar que dentro de 20 anos a paisagem
portuguesa ainda não será igual à do Norte de África. Se tudo continuar como
está, as semelhanças físicas com Marrocos serão inevitáveis a breve prazo.
José Gomes Ferreira